Resolução de Conflitos entre Irmãos
 |
Escrevo motivado pela lição seis da Escola Dominical deste trimestre com o título: Demandas Judiciais entre Irmãos. Trata-se de um estudo na primeira epístola aos Coríntios em que Paulo questiona a igreja: acaso não há entre vocês alguém suficientemente sábio para julgar uma causa entre irmãos? (6:5 - NVI).
Parece que os destinatários da carta moram na modernidade, onde as pessoas “processam” umas as outras entulhando o Poder Judiciário com pendências das relações humanas. Também parece que Paulo sabe dos investimentos da Justiça nas estratégias de conciliação e mediação de conflitos. Mas, vamos ao contexto da carta. As ponderações de Paulo aos coríntios estão no limiar de três culturas. A formação de vida do apóstolo é na Lei e nos Profetas, logo, sabia Paulo da riqueza e sabedoria da cultura judaica no tratamento das questões entre irmãos. Mas, não podemos nos esquecer que Corinto é uma cidade grega, e como tal, berço de uma cultura que se estendia por todo o mundo da época. Os gregos resolviam as suas questões na praça da cidade, afinal eram os mais políticos dos homens! A terceira cultura presente neste contexto é a romana. Esta, por sua vez, é a mãe das instituições e das formas jurídicas. Um exemplo é a criação em Jerusalém de um “sinédrio” (supremo conselho dos judeus) a partir do momento que o governo romano se estabelece em Israel. Quanto às formas jurídicas, vemos no Evangelho de Marcos (escrito aos romanos), que no sinédrio “muitos testemunhavam falsamente contra Jesus, mas os depoimentos não eram coerentes” (14:56), mesmo assim, os principais sacerdotes e escribas entregaram Jesus a Pilatos (procurador romano na Judéia).
O próprio Paulo foi membro do sinédrio no tempo em que era fariseu e perseguidor da igreja. O apóstolo sabia que estes “tribunais” por vezes fomentavam um espetáculo. Por outro lado, judeus e gregos tinham possibilidades culturais para resolução de conflitos comunitários. Contudo, penso que a inspiração paulina deve-se (ainda) a outra fonte.
Em certa ocasião, ao ser chamado para “julgar” uma causa de herança entre irmãos, Jesus questiona “quem me constituiu juiz ou partidor entre vós?” (Lucas 12:54). Esta questão aponta o lugar dos mestres e sábios no meio do povo, procedimento sugerido na carta aos Coríntios. Na continuidade desta cena, Jesus propõe uma parábola sobre os perigos da avareza. Enfim, Ele não decidiu a questão, mas sob a ótica do reino de Deus responsabilizou o homem para tomar uma decisão sem prejuízos a sua alma. Jesus surpreendia o povo pela sua autoridade, não era como os escribas e fariseus.
Conflitos existem! Podem ser até uma vergonha para nós, contudo, importa o tratamento que daremos a eles. No memorável sermão da montanha Jesus determina o que precisamos hoje considerar: entra em acordo sem demora com o teu adversário enquanto estás com ele a caminho (Mateus 5:25).